Entre Perplexidades e Incertezas

Basílica de São Pedro

“Venerados irmãos e filhos amados! Pronuncio perante vós, decerto tremendo um pouco de comoção, mas, com humilde resolução de propósito, o nome e a proposta de uma dupla celebração: um Sínodo diocesano para Roma e um concílio ecumênico para a Igreja universal”. Com estas palavras, o Papa João XXIII anunciou o Concílio Vaticano II, no dia 25 de janeiro de 1959, aos cardeais residentes em Roma, que estavam reunidos num mosteiro beneditino, nas proximidades da basílica de São Paulo Além dos Muros. 

A notícia que surpreendeu o mundo cristão foi apresentada, na emissora de Rádio Vaticano, antes do papa comunica-la aos cardeais, em virtude de um imprevisto no tempo da missa, acontecida mais cedo na basílica de São Paulo. Tenha-se em conta que, o anúncio conciliar e o Sínodo para a diocese de Roma foram, ainda, seguidos de uma terceira proposta: a atualização do Código de Direito Canônico de 1917. Segundo o Papa João XXIII, na mesma alocução, foram estes “os pontos luminosos de atividade apostólica que esses três meses de presença e contato com o ambiente de Roma sugeriram”.

De modo geral, a Igreja e a opinião pública mundial foram tomadas, como algo que é dado a um só golpe e de uma vez por todas, de perplexidade e incerteza quanto ao que havia sido divulgado. Dois anos adiante, o Papa João XXIII recordou que os dezessete cardeais presentes na ocasião reagiram “com impressionante e devoto silêncio”. O restante do colégio cardinalício foi contatado pelo Secretário de Estado, o Cardeal Domenico Tardini. Destes, menos de um terço dos cardeais emitiram resposta sobre a novidade do concílio. Os que apresentaram retorno à carta ofereceram as suas orações e manifestaram os seus préstimos diante do anúncio conciliar. Da Igreja do Brasil, foi encontrada, apenas, entre os documentos pontifícios, a resposta do Cardeal Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro, para o qual esta notícia “abriu um raio de esperança em dias melhores para a cristandade”.

Em suma, a notícia de um concílio ecumênico, ainda sem o nome, foi recebida com certa hesitação pela imprensa e pelos diversos setores eclesiais. Na história da Igreja, estava anunciado aquele que se tornou uma dos maiores episódios eclesiais já acontecidos, pela confluência espiritual e numérica dos seus participantes.

Série 50 anos do Concílio Vaticano II. Texto publicado no Jornal São Salvador: Maio de 2012.

 

A Bússola Dourada

A Bússola Dourada

Os nomes de Dom Augusto Álvaro da Silva, Dom Eugênio de Araújo Sales e Dom Avelar Brandão Vilela gravados nas colunas de acesso ao adro da basílica de São Pedro tornam familiar aos católicos da Arquidiocese de São Salvador esta obra prima da arquitetura. O registro dos capitulares da Sé Primacial do Brasil nas colunas da basílica de São Pedro deve-se à sua participação no acontecimento eclesial mais extraordinário do século XX, o ecumênico Concílio Vaticano II. Esse episódio inaugurado na história da Igreja pelo papa João XXIII, no dia 11de outubro de 1962, nos tomará nas linhas e edições seguintes.

Para início de conversa, os concílios são reuniões dos bispos, convocadas pelo bispo de Roma e presididas por ele, com o objetivo de definir assuntos de fé, de moral e de doutrina da Igreja. Recordemos que, até o Vaticano II, aconteceram vinte concílios em toda história, sendo o homônimo Vaticano I (1869 – 70) e o Concílio de Trento (1545 – 63) os dois últimos. O vigésimo primeiro concílio, que aconteceu entre os anos de 1962- 65, alongou-se por dois governos pontifícios, a tomar conhecimento, dos Papas João XXIII e Paulo VI.

É conveniente explicar, e é preciso fazê-lo imediatamente, que o caráter ecumênico do concílio não se aplica a um envolvimento direto das outras religiões cristãs no seu desenvolvimento, mas à participação da Igreja presente em todo o orbe numa assembleia única e universal. Neste sentido, o Concílio Vaticano II contou, em sua abertura, com a presença de mais de dois mil e quinhentos bispos dos cinco continentes, além dos superiores gerais das congregações religiosas, de vinte e oito representantes de Igrejas cristãs e de algumas personalidades do mundo leigo.

Outro aspecto, ainda, fez deste concílio peculiar. O Vaticano II não se preocupou com a definição de novos dogmas, nem com uma reforma da Igreja, mas com uma atualização pastoral e eclesial. Em virtude desta perspectiva, e, apenas por ela, essa postura conciliar conseguiu lançar novos fachos de luz no átrio multissecular da Igreja. Tratava, na verdade, de um desejo de fazer a Igreja encontrar um caminho na compreensão do mundo Moderno, como também o seu contrário. Tanto que, nos disse o papa João Paulo II na entrada do terceiro milênio: “sinto (…) o dever de indicar o Concílio como a grande graça que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa” (Novo Millennio Ineunte, n.57).

Pois bem, neste arco de tempo dourado (2012 – 2015), em que celebramos o jubileu do Vaticano II, refletiremos alguns episódios conciliares, entre eles, o seu anúncio e convocação, a participação do episcopado brasileiro no seu desenvolvimento, as Conferências de Domus Marie e a compreensão que a Igreja adquiriu de si e do mundo com quem se relaciona, a partir deste momento. Quanto aos antigos pastores da Igreja da Bahia que tiveram a sua memória perpetuada nas colunas da basílica de São Pedro, doravante, nos acompanharão como os padres conciliares do Vaticano II, nas próximas edições do Jornal São Salvador.

Série 50 anos do Concílio Vaticano II. Texto publicado no Jornal São Salvador: Abril de 2012.


 

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Trecho do livro “Pouso dos Cristãos”

A criação da freguesia de São Sebastião dá-se numa específica conjuntura eclesial: a este tempo, a Igreja do Brasil encontrava-se submetida aos Direitos de Padroado, regime durante o qual esteve oficializada a união da Igreja com a Coroa de Portugal. E damos, aqui, relevo a esse acordo, posto ser imprescindível à compreensão da história precedente à criação da freguesia e às relações que a Igreja continuará constituindo com o Estado da criação da paróquia em diante, por mais dois séculos, quase.

O termo padroado tem a sua gênese na palavra latina patronus (FERREIRA, 2000, p.353) e pode ser traduzido por advogado, defensor ou protetor. As traduções que recebem o termo patronus iluminam a compreensão das concessões administrativas feitas pelo Papa ao Rei de Portugal, de certo grau de controle sobre uma Igreja local. No contexto em que se insere, esse termo evoca a idéia de “padroeiros terrestres” [1], inspirando e servindo de modelo a este direito.

Tendo isso em conta, e admitindo atrás de si uma história que envolve relações com as Ordens Religiosas Militares[2], no ano de 1551, foi instituído o regime que conferiu somente aos reis de Portugal, a partir dessa data, unirem às prerrogativas dos direitos políticos que possuíam, as funções do grão-mestrado das ordens religiosas militares. De modo que, o Direito de Padroado concedido pelo papa Júlio III estendeu aos monarcas portugueses o exercício, além do governo civil, da administração religiosa nas colônias sob sua jurisdição. A partir disso, constituiu uma obrigação do rei de Portugal a responsabilidade de instalar a Igreja e propagar a mensagem cristã nos domínios ultramarinos.

Nestas condições de “Governador e Perpétuo administrador”, se encontrava “El – rey”, D. João V (1707 – 1750), do “Mestrado e da Cavallaria e Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo”, quando ordenou que  “Das Freguesias de N. Sra. do Monte [do Recôncavo], e de N. Sra. da Encarnação de Passe Cabeceiras, da de N. Sra. do Socorro se desmembre e se crie outra Freguesia”. Essa paróquia, que recebeu o nome de São Sebastião das Cabeceiras do Passé, foi confirmada no governo pastoral de D. Sebastião Monteiro da Vide, na sua competência. E teve o seu espaço eclesiástico concebido a partir dos territórios atuais de Encarnação de Passé, que constituiu a sua maior parte, do Monte e de Mataripe, ambos distritos de São Francisco do Conde.

(…) 

O panorama mais antigo da Freguesia de São Sebastião, à época aproximada de sua criação, seguramente encontrado pelo Pe. Gaspar de Souza, nos é mostrado por uma situação de desagrado, quando “os habitantes de Nossa Senhora do Passé queixaram-se ao perder um distrito contendo cinco engenhos e 2500 almas devido à criação da nova paróquia de São Sebastião [das Cabeceiras] do Passé, em1729”(SCHWARTZ, 1995, p.81). Não se passarão trinta anos deste informe, quando o Vigário colado Felipe Barbosa da Cunha, em 1757, enviou à Coroa de Portugal a notícia de que possuía a freguesia 410 fogos e 2640 almas (ACCIOLI; AMARAL, 1937, p. 404). Entenda-se a palavra “fogos” à semelhança de fogão, indicador, portanto, das unidades familiares, as casas.

Em 1759, um novo censo nos aparece. Este, feito por José Antônio Caldas, nos dá a notícia de 2500 habitantes (CALDAS, 1951, p.66-67), “na qual não entram os menores de sete anos, nem os pagãos” (idem, p. 70), distribuídos à beira dos caminhos mais antigos, nos oito engenhos e sessenta e dois sítios que faziam parte da freguesia de São Sebastião, registrados pelo Vigário Felipe Barbosa, dois anos antes. Prestemos, aqui, atenção a um detalhe curioso: é sabido que não são um e mesmo os olhares do Vigário Felipe Barbosa e do engenheiro militar Antônio Caldas. O Vigário Felipe Barbosa considera como almas tanto os não batizados quanto as crianças que ainda não atingiram a idade da razão, sete anos, enquanto o Cap. Antônio Caldas contemplou apenas a população economicamente ativa e disponível militarmente, em seu censo feito dois anos depois. Disso depreende-se que a freguesia, em meados do Dezoito, contava com 140 crianças e não batizados.

Às portas do Oitocentos, a paróquia São Sebastião sofre a primeira transformação em sua geografia eclesiástica e o número dos cristãos reunidos diminui consideravelmente.  No ano de 1799, durante a transição de pastoreio do Pe. Manoel José Ribeiro para o do Pe. José Joaquim da Rocha, contávamos com a quantidade de 240 fogos e o diminuído número de 1956 almas, registra Vilhena (1969), (Livro de Batismo, 1785-1815, pp.60-195). Uma redução ainda mais acentuada no número de moradores devido ao desmembramento sofrido com a criação da freguesia de Sant’Anna do Catu, em 1787.

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Sinopse do Pouso dos Cristãos

Pouso dos Cristãos trata de uma freguesia e do seu processo de formação. Uma concessão de terras, um movimento povoador e a irradiação de uma experiência devocional compõem a proto-história desta porção da Bahia colonial.

Por trás das cortinas deste cenário, esconderá o recôncavo baiano oitocentista, ao Concílio de Trento e Regime do Padroado, a pungente ruralidade que não se furtará a determinar a vivência da fé e conferir fisionomia à gente fiel reunida.

Em tempo curto, na vida desta freguesia, serão acentuados os atos de culto e ritos que os farão passar de pagãos a cristãos, de solteiros a casados e de vivos a mortos. Não tardará, este povo recôncavo e devoto se verá envolvido numa trama de relações que os constituirá clérigos e fregueses na freguesia de São Sebastião das Cabeceiras do Passé (XVIII).

Dia 1° de julho divulgaremos trecho do livro no blog!

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Capa do “Pouso dos Cristãos”

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Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial

Depois de três anos de pesquisa, virá ao público um trabalho sobre o processo de formação das freguesias na Bahia colonial. O livro apresenta o caso de uma das vinte freguesias criadas, em tempo único, por D. Sebastião Monteiro da Vide, no ano de 1718.  Por intermédio de processos de inquirição, obituários, cartas geográficas, livros de engenhos, rituais litúrgicos, testamentos e documentos régios, aproximamos do leitor o passado colonial de São Sebastião. O resultado apresenta o cotidiano de uma freguesia, no Dezoito, perscruta a sociedade sebastianense colonial, refazendo a fisionomia da gente fiel e dos seus decisivos momentos.

 A obra, de minha autoria, levará o nome de Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial será lançada no segundo semestre de 2011.

Dia 12 de junho, apresentaremos a capa do Pouso dos Cristãos e a data do lançamento do livro.

Danilo Pinto, Pe.

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Deus Existe: Albert Einstein

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