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Diagnósticos e Definições Estratégicas na Gestão Eclesial

Ano 8, n. 46 / Jan e Fev 2014

Ano 8, n. 46 / Jan e Fev 2014

A instituição paróquia, cenário privilegiado do cotidiano das Igrejas Particulares, assumiu uma complexidade que não possuía outrora. Em muitas paróquias do Brasil, os ambientes da secretaria paroquial foram ampliados em centros pastorais e de ação social; funcionários tiveram os seus direitos e deveres reconhecidos, ante a legislação trabalhista; sistemas integrados de gestão passaram a fazer parte do cotidiano; o patrimônio antigo passou a ter um acompanhamento mais técnico, tudo isto, em vista da pastoral e da missão. Esta série de pontos e vírgulas, no texto e na história da paróquia, faz-nos observar que, enquanto a maioria das grandes organizações dividiram as atribuições dos seus funcionários (em cargos operacionais, táticos e estratégicos), esta instituição do terceiro setor permaneceu com as figuras do pároco e da antiga secretária paroquial, como os principais colaboradores. A organização administrativa da paróquia, infelizmente, não acompanhou o seu evolutivo grau de complexidade.

Se as paróquias nasceram de uma preocupação pastoral e missionária (Doc. 104 CNBB, p. 34), as mudanças na sua administração devem acontecer por preocupação semelhante. Já sabemos: toda estrutura administrativa da Igreja existe em função da pastoral, da missão e da comunhão eclesial. “Conhecer a realidade das comunidades paroquiais é determinante para identificar caminhos possíveis para a renovação paroquial e a consequente revitalização das comunidades cristãs” (Doc 104 CNBB, p. 50). Diante da nova complexidade organizacional da paróquia, é preciso adotar uma nova dinâmica institucional.

UM DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO

Toda paróquia existe dentro de um ambiente. O primeiro passo para nova dinâmica institucional é realizar uma análise do ambiente paroquial. O ambiente paroquial deve, aqui, ser entendido como o conjunto de fatores que influenciam e interferem na vida da paróquia, do ponto de vista interno e externo. O próprio documento de estudos da CNBB (104), Comunidades de Comunidades: Uma Nova Paróquia, nos alerta, “em si, a paróquia não é um todo, pois está unida a outras paróquias formando a Igreja Particular, ou a Diocese. Igualmente, a paróquia está inserida na sociedade, recebe e oferece influências” (p. 51). Para obtermos um diagnóstico estratégico é importante distinguir o ambiente paroquial, em macro e microambiente.

O macroambiente paroquial é constituído dos fatores externos à instituição, sobre os quais ela não possui controle. Compõem o ambiente geral os fatores naturais, demográficos, econômicos, culturais, políticos e tecnológicos. Ainda, dentro do ambiente externo, existe um ambiente operacional, sobre os quais a paróquia também não possui domínio: fiéis, voluntários, fornecedores, movimentos, paróquias vizinhas e outras denominações religiosas cristãs e não cristãs. É no macroambiente que estarão concentradas as oportunidades de crescimento e possíveis riscos à vida da paróquia.

O microambiente paroquial, por sua vez, é definido pelos pontos fortes e fracos, sobre os quais a instituição possui certo grau de controle. Compõe o microambiente o relacionamento da paróquia com os fiéis, a transparência na prestação de contas, a comunicação pastoral, a qualificação dos funcionários, os grupos e pastorais, os ministros extraordinários, a resposta às demandas dos paroquianos, a imagem da paróquia na sociedade e os recursos (instalações, equipamentos, marcas e projetos). Nestes aspectos, estão concentradas as principais forças e necessidades de melhoria da instituição. Estes pontos precisam ser trabalhados, a fim de que a paróquia melhore o seu desempenho administrativo-pastoral, e conquiste os resultados almejados.

A ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA PAROQUIAL

A administração paroquial compreende o planejamento da instituição e a coordenação dos fiéis, em vista da pastoral. Ela existe em função da pastoral, e, é influenciada pelo macro e microambiente da instituição. É preciso, contudo, administrar esta complexidade, estabelecendo uma eficaz adequação entre a paróquia, o ambiente paroquial, os seus recursos e os fiéis, em vista do seu plano pastoral e administrativo. Encontrar este ajuste garantirá a assistência dos fiéis, a eficácia e o crescimento pastoral, a saúde financeira da paróquia e o cuidado com o patrimônio.   Algumas perguntas podem ajudar a desenvolver a sua estratégia:

1ª. como o macroambiente afeta a paróquia?

2ª. A paróquia consegue influenciar algum dos fatores macroambientais?

3ª. De que recursos a paróquia precisa dispor para responder à realidade circundante?

Ouvimos falar, nos últimos documentos da Igreja no Brasil e da América Latina, acerca de dois sistemas pastorais: a pastoral sacramental e a pastoral orgânica. E, que, é preciso deixar um para adotar o outro. Tenhamos em conta que, cada modelo pastoral pressupõe uma estrutura administrativa.

Na pastoral sacramental, a vida da paróquia marca os principais momentos da vida do indivíduo conduzindo-o de não-cristão à batizado, de solteiro à casado e de vivo à morto. A vida pastoral é setorizada, segundo os sacramentos e ciclos pré-estabelecidos, catequese para a iniciação cristã, festa de padroeiro, atendimento do padre na secretaria, visita aos enfermos, etc. As metas pastorais dos fiéis e grupos são pré-definidas pelo pároco. Pelo fato de existirem poucas mudanças no ambiente externo e o cenário ser previsível, as atividades podem ser planejadas com bastante antecedência.  Para a pastoral sacramental, uma secretaria paroquial com, apenas, um auxiliar administrativo para informações gerais, organizar a agenda do padre, e receber o dízimo é suficiente. O modelo pastoral sacramental exige uma estrutura administrativa simples e operacional

DEFINIÇÕES ESTRATÉGICAS

Caso a paróquia esteja em um ambiente em transformações ou turbulento, é necessário que seja colocada em prática uma pastoral orgânica. Neste modelo, os fiéis e os grupos trabalham em conjunto, são proativos e dependem menos de cobranças do pároco para funcionar. Na proposta orgânica, as tarefas pastorais têm de ser redefinas constantemente para estar de acordo às necessidades do mutante macroambiente paroquial. Os problemas precisam ser abordados por diferentes frentes pastorais, respondidos de forma integral e criativa. Os fiéis devem cultivar o empreendedorismo pastoral, estar em constante processo de comunicação, favorecendo a unidade (não uniformidade) paroquial e a comunhão eclesial.

As necessidades da pastoral orgânica é que determinarão a estrutura, as ações e as estratégias administrativas de uma paróquia. É óbvio que a proposta de uma pastoral orgânica pede uma estrutura que complemente o tradicional formato de secretaria paroquial ou até mesmo que o ultrapasse. Os atendimentos podem ser divididos em pastoral, administrativo e social, com atribuições bem definidas. Pode haver a necessidade de, dentro do atendimento pastoral, se criar um atendimento exclusivo para o dízimo, em virtude da quantidade de dizimistas ou haver a necessidade de criar um atendimento para outra pastoral ou serviço que seja o carro-chefe da paróquia.

Esta modalidade de pastoral orgânica pode vir a suscitar estruturas ainda mais inovadoras, como a que propomos na edição 43, desta revista, julho-agosto 2013. Nesta edição, propomos que a paróquia fosse entendida, a partir de novas centralidades, chamadas de Centralidades de Irradiação Pastoral. Nestas centralidades podem existir secretarias paroquiais com autonomia pastoral limitada, podendo oferecer alguns serviços. Observe-se que já o documento de estudo da CNBB (n. 104 p. 75), nos recomenda que “é possível descentralizar o atendimento pastoral, mesmo que não seja fácil ‘passar de uma estrutura centralizada num único prédio, onde acontecem todas as atividades, a uma paróquia comunidade de comunidades” (…).

Em suma, a eficácia da estrutura administrativa paroquial depende do correto “ajustamento” entre a paróquia, o ambiente paroquial, os seus recursos e os fiéis. Não existe, portanto, uma fórmula ou modelo predefinido de organização administrativa, mas um ambiente e complexidade paroquial que precisam ser compreendidos e, para os quais, precisam ser oferecidas respostas.    

Pe. Danilo Pinto cursa MBA Internacional em Gestão Empresarial (Ruy Barbosa – DeVry Brasil), coordena a Pastoral Universitária, e atua como administrador da Paróquia Sagrada Família (Arquidiocese de São Salvador da Bahia).Leciona e coordena o Núcleo de Pastoral da Universidade Católica do Salvador. Pesquisa História da Igreja no Brasil, e é autor dos livros “Dom Avelar: Um Bispo do Brasil Nordeste” (Edições CNBB) e “Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial” (Editora Vento Leste).

Blog: www.danilopinto.wordpress.com

Contato: pedanilopinto@yahoo.com.br

Gestão Eclesial – Novas Experiências Administrativas

Aprenda novas ferramentas de organização para dinamizar a administração paroquial

ImagemTodo pastor atento percebe a inconformidade da vida dos paroquianos com a disponibilidade dos serviços oferecidos pela paróquia (grande maioria): são horários de atendimento inadequados às pessoas, secretarias distanciadas das comunidades, ausência de estruturas que favoreçam a comunhão eclesial, etc. Foi em virtude destes e de outros aspectos, que, a 51ª Assembleia Geral da CNBB teve por principal tema “Comunidades de Comunidades: uma nova paróquia”.

Não temos, aqui, espaço suficiente para apresentar os caminhos históricos que a instituição paróquia percorreu até o presente. Mas, podemos constatar com facilidade que a maior parte das paróquias possui estruturas que não mais respondem à dinâmica da vida das pessoas e dos espaços urbanos, que sofrem com um crescimento desorganizado, a concentração excessiva de gente e com dificuldades de mobilidade urbana. Não perceber é cultivar uma espécie de miopia pastoral. Talvez por isto, sejamos advertidos pelas atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE) ao nos dizerem que “quando a realidade se transforma, devem, igualmente, se transformar os caminhos pelos quais passa a ação evangelizadora” (p. 31).

O Documento de Aparecida é claro: “a renovação da paróquia exige atitudes novas dos párocos e dos sacerdotes que estão a serviço dela” (p. 201). E, não nos enganemos, em se falando da paróquia, a mudança de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária (n.370) passa, também, pela coragem de mudar as suas estruturas administrativas. Por conta disto, apresentamos duas ferramentas de organização administrativa paroquial, uma voltada para as comunidades e outra às pastorais, a saber, a descentralização do atendimento da secretaria, concebendo a paróquia a partir de novas centralidades[1] e a segunda, uma estrutura de trabalho colaborativo entre os grupos, denominada de “coworking pastoral[2].

 

NOVAS CENTRALIDADES PAROQUIAIS

Como é sabido, a secretaria não pode ser entendida, apenas, como um lugar burocrático da vida da paróquia. A secretaria paroquial é um lugar de vivência da fé, animação pastoral e fomento das relações dentro da comunidade cristã. Para uma melhor compreensão, podemos fazer uma distinção do trabalho da secretaria em atendimento administrativo (funcionários, finanças, patrimônio, etc) e atendimento pastoral (acolhida, informações gerais, sacramentos, etc). Poderíamos ainda pensar outras distinções, mas por hora, nos limitaremos a estes dois aspectos. Tanto para uma quanto para outra dimensão, aquele que ocupa a função de secretário(a) nunca deverá se limitar à operacionalização de um escritório, mas aproveitar deste lugar privilegiado para anunciar o Cristo, promover as atividades da paróquia, ajudar as pessoas a dar passos mais concretos na vida cristã e fomentar a comunhão eclesial.

Embora seja fundamental para o entendimento da proposta, isto não torna a secretaria mais eficaz nas paróquias que reúnem diversos bairros em sua circunscrição. Por conta disso, propomos que a estrutura paroquial seja entendida a partir de novas centralidades e que nestas novas centralidades, existam secretarias paroquiais com autonomia limitada, além do centro administrativo financeiro, que normalmente, situa-se na comunidade matriz. De modo que, a partir destas estruturas consigamos criar lugares de animação pastoral e missão permanentes, e aproximar os serviços dos nossos fiéis.

As secretarias paroquiais com autonomia limitada, instaladas em pontos estratégicos, poderão permitir a condução de processos matrimoniais, agendamento dos sacramentos e intenções, transferência de batismo e outros sacramentos, informações gerais, despacho de certidões, curso de pais e padrinhos, suporte para a evangelização e formação, atendimento do padre, expansão do trabalho social da paróquia e recebimento do dízimo. Enfim, a disponibilidade desta ferramenta pode transformar a paróquia, comunidade de comunidades, em um lugar de missão permanente, a partir destas unidades de atendimento e funcionários qualificados.

 

COWORKING PASTORAL

O segundo ponto a que nos propomos, convida à criação de uma estrutura administrativa que favoreça um trabalho colaborativo entre os nossos grupos[3]. Para tanto, reunimos o conceito empresarial de coworking aos esforços de realização do Reino de Deus nas realidades específicas, a que chamamos pastorais.

Mas, o que significa este termo? O coworking significa trabalho colaborativo, e surgiu nos Estados Unidos, em 2005, quando o engenheiro Brad Neuberg resolveu montar uma comunidade de trabalho com os seus amigos (Você S\A, 2011, p. 39). Dessa iniciativa, surgiu um escritório compartilhado que minimizava gastos, livrava do isolamento e possibilitava a troca de informações. Segundo Castro Alves, fundador da Comunidade Coworking Brasil “o coworking é mais informal, mais focado no conceito de comunidade, com pessoas trabalhando em conjunto, se ajudando” (A TARDE, 2011, p. 5).

O coworking pastoral é a proposta de um ambiente de trabalho eclesial. Constitui um espaço físico que recolhe os esforços empregados na construção do Reino, em suas realidades mais particulares (juventude, pessoa idosa, família, etc). Esta proposta necessita de um espaço físico com estações de trabalho, computadores, armários para cada grupo e horários de trabalho comum que fomentem o encontro dos agentes de pastoral. Com isso, a paróquia possibilitará que cada pastoral tenha o seu “escritório” em um ambiente colaborativo, um espaço de comunhão eclesial. Além de oferecer uma estrutura administrativa para o planejamento de cada grupo, o coworking pastoral pode favorecer, neste mesmo espaço físico, a socialização das ações, provocando o surgimento de atividades pastorais compartilhadas.

O coworking pastoral pode ainda trazer outros benefícios:

  1. A inclusão dos agentes de pastoral nos diversos meios de comunicação;
  2. A diminuição dos gastos pessoais dos colaboradores;
  3. Sala de reunião para a realização dos trabalhos;
  4. A integração das diversas pastorais, em uma troca de experiências entre as realidades paroquiais.

 

CONCLUSÃO

Em suma, é preciso que as paróquias se adequem às novas formas de organização da cidade e tornem a sua presença mais qualificada na vida dos fiéis, mesmo que seja preciso “abandonar as estruturas obsoletas, que não favorecem a transmissão da fé” (DAp, 365). De modo que, instalar um coworking pastoral e suscitar novas centralidades de irradiação pastoral, a partir de secretarias com autonomia limitada, são formas de aumentar a presença da Igreja nos lugares de maior população e necessidade, bem como, amenizar a urgência da criação de novas paróquias, enquanto não possuímos estruturas e sacerdotes suficientes.

 

Pe. Danilo Pinto cursa MBA em Gestão Empresarial, e atua como administrador da Paróquia Sagrada Família (Arquidiocese de Salvador). Leciona e compõe o Núcleo de Pastoral da Universidade Católica do Salvador. Pesquisa História da Igreja no Brasil, e é autor dos livros “Dom Avelar: Um Bispo do Brasil Nordeste” (Edições CNBB) e “Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial” (Editora Vento Leste).

Blog: www.danilopinto.wordpress.com

Contato: pedanilopinto@yahoo.com.br


[1] Este projeto está em fase de implantação na Paróquia Sagrada Família, da Arquidiocese Primaz de São Salvador, da qual este autor é Administrador Paroquial.

[2] Esta proposta foi elaborada por este autor para a PASCOM da mesma arquidiocese e, aqui, adaptado à estrutura paroquial.

[3] Tomamos as pastorais como exemplo.

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Um Plano de Emergência

CNBBA carta consulta dos temas que deveriam ser discutidos no Concílio, enviada pelo Cardeal Domenico Tardini, conseguiu levantar 8.972 proposições. A fase preparatória ocupou-se de transformar estas proposições em esquemas de trabalho, preparar as diretrizes e a infraestrutura para a realização do Concílio. Ao fim desta etapa, estavam organizados setenta esquemas para o trabalho dos peritos, consultores e padres conciliares.

Para que este resultado fosse alcançado foram constituídas dez comissões, nove delas correspondentes aos dicastérios da Cúria Romana e uma comissão coordenadora de todo processo. Os responsáveis pelas congregações romanas passaram também a presidir as comissões espelhadas. Ao todo, 846 pessoas trabalharam na fase preparatória do Concílio. Segundo Oscar Beozzo, deste total de envolvidos, apenas, dez eram brasileiros. Único que desempenhava um trabalho no Nordeste, entre os brasileiros que contribuíram nesta fase, foi Dom José Vicente Távora, que se encontrava em Aracaju (SE) e participou do Secretariado da Imprensa e do Espetáculo.

Em tempo simultâneo ao da estruturação do Concílio, aumentava na Igreja o interesse por estudos e reflexões que pudessem preparar os participantes para a histórica ocasião. Junto a isto, uma solicitação do papa João XXIII feita, em dezembro de 1961, aos episcopados latino-americanos fez com que a Igreja no Brasil se preparasse melhor para o Vaticano II. O bispo de Roma solicitou, por meio de carta ao CELAM, que as conferências episcopais pudessem elaborar planos pastorais que atendessem às necessidades especiais da Igreja no continente. Em virtude disto, a Igreja no Brasil elaborou um projeto chamado Plano de Emergência (PE). O PE, que constituiu o primeiro momento de um programa pastoral coordenado, nacionalmente, definiu os seis primeiros regionais da CNBB, e fez com que os bispos pudessem se apropriar melhor da situação eclesial e social do país, às vésperas do concílio.

Este momento de preparação da Igreja para o Concílio Vaticano II tomou cerca de dois anos. A participação dos bispos brasileiros nesta fase do concílio foi muito modesta, como a dos outros bispos não europeus. No Brasil, a solicitação do papa fez com que pudéssemos nos organizar melhor para as adventícias indicações conciliares. No Natal de 1961, estava convocado o Concílio, pelo papa João XXIII, para o ano seguinte.

Série 50 anos do Concílio Vaticano II. Texto publicado no Jornal São Salvador: Julho de 2012.

São João de Ávila: Um novo Doutor para a Igreja

A Conferência Episcopal Espanhola, produziu um vídeo que mostra os traços principais do presbítero, padroeiro do clero diocesano espanhol, que será proclamado doutor universal da Igreja, no dia 07 de outubro de 2012.

A Igreja Católica presente no mundo

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Discurso do Papa Bento XVI aos bispos (Regional NE 3) em Visita Ad Limina

Senhor Cardeal,

Amados Arcebispos e Bispos do Brasil,

Saúdo calorosamente a todos vós, por ocasião da vossa visita ad Limina a Roma, aonde viestes reforçar os vossos vínculos de comunhão fraterna com o Sucessor de Pedro e por ele serdes animados na condução do rebanho de Cristo. Agradeço as amáveis palavras que Dom Ceslau Stanula, Bispo de Itabuna, dirigiu-me em vosso nome, e vos asseguro as minhas orações pelas vossas intenções e pelo amado povo nordestino, do vosso regional Nordeste 3.

Há mais de cinco séculos, justamente na vossa região, se celebrava a primeira Missa no Brasil, tornando realmente presente o Corpo e o Sangue de Cristo para a santificação dos homens e das mulheres desta bendita nação que nasceu sob os auspícios da Santa Cruz. Era a primeira vez que o Evangelho de Cristo vinha a ser proclamado a este povo, iluminando a sua vida diária. Esta ação evangelizadora da Igreja Católica foi e continua sendo fundamental na constituição da identidade do povo brasileiro caracterizada pela convivência harmônica entre pessoas vindas de diferentes regiões e culturas. Porém, ainda que os valores da fé católica tenham moldado o coração e o espírito brasileiros, hoje se observa uma crescente influência de novos elementos na sociedade, que há algumas décadas eram-lhe praticamente alheios. Isso provoca um consistente abandono de muitos católicos da vida eclesial ou mesmo da Igreja, enquanto no panorama religioso do Brasil, se assiste à rápida expansão de comunidades evangélicas e neo-pentecostais.

Em certo sentido, as razões que estão na raiz do êxito destes grupos são um sinal da difundida sede de Deus entre o vosso povo. É também um indício de uma evangelização, a nível pessoal, às vezes superficial; de fato, os batizados não suficientemente evangelizados são facilmente influenciáveis, pois possuem uma fé fragilizada e muitas vezes baseada num devocionismo ingênuo, embora, como disse, conservem uma religiosidade inata. Diante deste quadro emerge, por um lado, a clara necessidade que a Igreja católica no Brasil se empenhe numa nova evangelização que não poupe esforços na busca de católicos afastados bem como daquelas pessoas que pouco ou nada conhecem sobre a mensagem evangélica, conduzindo-os a um encontro pessoal com Jesus Cristo, vivo e operante na sua Igreja. Por outro lado, com o crescimento de novos grupos que se dizem seguidores de Cristo, ainda que divididos em diversas comunidades e confissões, faz-se mais imperioso, da parte dos pastores católicos, o compromisso de estabelecer pontes de contato através de um sadio diálogo ecumênico na verdade.

Tal esforço é necessário, antes de qualquer coisa, porque a divisão entre os cristãos está em contraste com a vontade do Senhor de que «todos sejam um» (Jo 17,21). Além disso, a falta de unidade é causa de escândalo que acaba por minar a credibilidade da mensagem cristã proclamada na sociedade. E hoje, a sua proclamação é talvez ainda mais necessária do que há alguns anos atrás, pois, como bem demonstram os vossos relatórios, mesmo nas pequenas cidades do interior do Brasil, observa-se uma crescente influência negativa do relativismo intelectual e moral na vida das pessoas.

Não são poucos os obstáculos que a busca da unidade dos cristãos tem por diante. Primeiramente, deve-se rejeitar uma visão errônea do ecumenismo, que induz a um certo indiferentismo doutrinal que procura nivelar, num irenismo acrítico, todas as “opiniões” numa espécie de relativismo eclesiológico. Paralelamente a isto está o desafio da multiplicação incessante de novos grupos cristãos, alguns deles fazendo uso de um proselitismo agressivo, o que mostra como a paisagem do ecumenismo seja ainda muito diferenciada e confusa. Em tal contexto – como afirmei em 2007, na Catedral da Sé em São Paulo, no inesquecível encontro que tive convosco, bispos brasileiros – «é indispensável uma boa formação histórica e doutrinal, que habilite ao necessário discernimento e ajude a entender a identidade específica de cada uma das comunidades, os elementos que dividem e aqueles que ajudam no caminho da construção da unidade. O grande campo comum de colaboração devia ser a defesa dos fundamentais valores morais, transmitidos pela tradição bíblica, contra a sua destruição numa cultura relativista e consumista; mais ainda, a fé em Deus criador e em Jesus Cristo, seu Filho encarnado» (n. 6). Por essa razão, vos incentivo a prosseguir dando passos positivos nesta direção, como é o caso do diálogo com as igrejas e comunidades eclesiais pertencentes ao Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, que com iniciativas como a Campanha da Fraternidade Ecumênica ajudam a promover os valores do Evangelho na sociedade brasileira.

Prezados irmãos, o diálogo entre os cristãos é um imperativo do tempo presente e uma opção irreversível da Igreja. Entretanto, como lembra o Concílio Vaticano II, o coração de todos os esforços em prol da unidade há de ser a oração, a conversão e a santificação da vida (cf. Unitatis redintegratio, 8). É o Senhor quem doa a unidade, esta não é uma criação dos homens; aos pastores lhes corresponde a obediência à vontade do Senhor, promovendo iniciativas concretas, livres de qualquer reducionismo conformista, mas realizadas com sinceridade e realismo, com paciência e perseverança que brotam da fé na ação providencial do Espírito Santo.

Queridos e venerados irmãos, procurei evidenciar brevemente neste nosso encontro alguns aspectos do grande desafio do ecumenismo confiado à vossa solicitude apostólica. Ao despedir-me de vós, reafirmo uma vez mais a minha estima e a certeza das minhas orações por todos vós e pelas vossas dioceses. De modo particular, quero aqui renovar a expressão da minha solidariedade paterna aos fiéis da diocese de Barreiras, recentemente privados da guia do seu primeiro e zeloso pastor Dom Ricardo José Weberberger, que partiu para a casa do Pai, meta dos passos de todos nós. Que repouse em paz! Invocando a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, concedo a cada um de vós, aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas, aos seminaristas, aos catequistas e a todo povo a vós confiado uma afetuosa Bênção Apostólica.

Papa Bento XVI, Salão suíço do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, 109\2010.

Fonte:http://press.catholica.va/news_services/bulletin/news/25998.php?index=25998&po_date=10.09.2010&lang=po

A Igreja da Bahia está em Roma

setembro 10, 2010 1 comentário

A Igreja de São Salvador da Bahia, na figura do seu pastor o Cardeal Arcebispo D. Geraldo Majella Agnello e de seus bispos auxiliares, está em Roma. Revivendo o encontro de Paulo, apóstolo das nações, com Pedro, chefe da Igreja, os bispos do Regional Nordeste 3 realizam a visita ad Limina Apostolorum. Nessa ocasião, entre os dias 02 e 11 de setembro, apresentarão ao Papa Bento XVI a situação pastoral das dioceses que compõem essa circunscrição eclesiástica da Igreja do Brasil.

A expressão ad Limina Apostolorum que dá nome à visita significa “aos túmulos dos apóstolos”, que são os apóstolos Pedro e Paulo. Desses, a Tradição da Igreja guardou como sendo a cidade de Roma o lugar dos seus martírios e sepultura. Nesta perspectiva[1], a visita aos túmulos dos apóstolos é realizada a cada cinco anos e compreende, além do encontro com o sucessor de Pedro, visitas aos dicastérios[2] romanos e uma peregrinação às quatro grandes basílicas de Roma, entre elas as de São Pedro e São Paulo fora dos Muros. Vale recordar que as últimas visitas ad Limina feitas pelos bispos da circunscrição eclesiástica Ne 3, que compreende os estados da Bahia e de Sergipe, aconteceram ainda com o papa João Paulo II nos anos de 1985, 1990, 1995 e 2002.

Na manhã do dia 02 de setembro, o Papa Bento XVI recebeu em Castel Gandolfo, sua residência apostólica, os bispos da arquidiocese de São Salvador e dioceses de Amargosa e Alagoinhas. Ainda na quarta-feira, às 16h, em Roma, os 26 bispos reunidos na visita ad Limina celebraram a missa na basílica de Santa Maria Maior sob a presidência do arcebispo Primaz do Brasil, D. Geraldo Majella. Na homilia[3] feita por ele, inclusive, associou a devoção à Mãe de Deus e a nevasca que a tradição guardou como acontecida em pleno verão no monte da basílica de Sta. Maria Maior, também reconhecida por N. Sra. Das Neves, à igreja de mesma devoção em Ilha de Maré, na Baía de Todos os Santos.

Em continuidade à visita ad Limina, numa entrevista a Rádio Vaticano, no dia 06 de setembro, D. João Carlos Petrini relatou alguns dos conselhos que ouviram durante as visitas. Segundo o bispo auxiliar de Salvador, nos encontros recomendaram, de forma especial, “um cuidado amoroso com o povo para não passar por cima da religiosidade popular, para respeitar e valorizar aquela riqueza de fé que o povo brasileiro espontaneamente tem; para acolher e abraçar com o evangelho de Jesus toda esta realidade de sofrimento e, também, de alegria que o povo brasileiro carrega” [4].

Em reportagem ao Jornal São Salvador[5], D. Geraldo Majella falou que, “a Igreja está presente em cada lugar do mundo, liderada por um bispo sucessor dos apóstolos. Independente das regiões, todos eles estão unidos pela Comunhão Eclesial, em que o papa é o centro da unidade. Portanto, quando partilhamos os acontecimentos das Dioceses, fortalecemos o agir missionário e a unidade da Igreja Católica”. Em suma, entre os vários significados que podem ser dados à visita ad Limina, está o fato de esta ser um importante gesto da relação da Igreja Particular com a Igreja Universal, gesto que traduz uma verdadeira eclesiologia de comunhão. É por este mesmo motivo que a Igreja da Bahia, Primaz do Brasil, em seu arcebispo e bispos auxiliares, está em Roma.

Diác. Danilo Pinto

*O título é uma alusão à crônica A Igreja da Bahia em Roma, publicada pelo cardeal D. Lucas Moreira Neves na década de 90 sobre os seminaristas e padres da Arquidiocese do Salvador que estudavam em Roma.


[1] CIC (Código de Direito Canônico) cân.399 e 400.

[2] Congregações, Conselhos, Comissões e Tribunais que constituem a Cúria Romana.

[3] Trecho da homilia: http://www.radiovaticana.org/portuguese/noticiario/2010_09_02.html

[4] Entrevista: http://www.radiovaticana.org/portuguese/noticiario/2010_09_06.html

[5] Jornal São Salvador. Ano 5. Edição 66. Setembro de 2010. P. 03.