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Archive for the ‘História da Igreja’ Category

Um Plano de Emergência

CNBBA carta consulta dos temas que deveriam ser discutidos no Concílio, enviada pelo Cardeal Domenico Tardini, conseguiu levantar 8.972 proposições. A fase preparatória ocupou-se de transformar estas proposições em esquemas de trabalho, preparar as diretrizes e a infraestrutura para a realização do Concílio. Ao fim desta etapa, estavam organizados setenta esquemas para o trabalho dos peritos, consultores e padres conciliares.

Para que este resultado fosse alcançado foram constituídas dez comissões, nove delas correspondentes aos dicastérios da Cúria Romana e uma comissão coordenadora de todo processo. Os responsáveis pelas congregações romanas passaram também a presidir as comissões espelhadas. Ao todo, 846 pessoas trabalharam na fase preparatória do Concílio. Segundo Oscar Beozzo, deste total de envolvidos, apenas, dez eram brasileiros. Único que desempenhava um trabalho no Nordeste, entre os brasileiros que contribuíram nesta fase, foi Dom José Vicente Távora, que se encontrava em Aracaju (SE) e participou do Secretariado da Imprensa e do Espetáculo.

Em tempo simultâneo ao da estruturação do Concílio, aumentava na Igreja o interesse por estudos e reflexões que pudessem preparar os participantes para a histórica ocasião. Junto a isto, uma solicitação do papa João XXIII feita, em dezembro de 1961, aos episcopados latino-americanos fez com que a Igreja no Brasil se preparasse melhor para o Vaticano II. O bispo de Roma solicitou, por meio de carta ao CELAM, que as conferências episcopais pudessem elaborar planos pastorais que atendessem às necessidades especiais da Igreja no continente. Em virtude disto, a Igreja no Brasil elaborou um projeto chamado Plano de Emergência (PE). O PE, que constituiu o primeiro momento de um programa pastoral coordenado, nacionalmente, definiu os seis primeiros regionais da CNBB, e fez com que os bispos pudessem se apropriar melhor da situação eclesial e social do país, às vésperas do concílio.

Este momento de preparação da Igreja para o Concílio Vaticano II tomou cerca de dois anos. A participação dos bispos brasileiros nesta fase do concílio foi muito modesta, como a dos outros bispos não europeus. No Brasil, a solicitação do papa fez com que pudéssemos nos organizar melhor para as adventícias indicações conciliares. No Natal de 1961, estava convocado o Concílio, pelo papa João XXIII, para o ano seguinte.

Série 50 anos do Concílio Vaticano II. Texto publicado no Jornal São Salvador: Julho de 2012.

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Capa do livro Dom Avelar Brandão Vilela: Um Bispo do Brasil Nordeste

Dom Avelar Brandão Vilela: Um bispo do Brasil NordesteMeus amigos, já se encontra à venda, no site das edições CNBB, meu novo livro escrito, em parceria, com o meu amigo Pe. Adriano Portela. O livro “Dom Avelar: Um Bispo do Brasil Nordeste”, resultado de um período intenso de pesquisa em várias cidades do Nordeste por onde passou o cardeal, é publicado pela editora da CNBB e Universidade Católica do Salvador. Este livro abre a série “Testemunhos”, cujo objetivo é desenvolver estudos acerca de pessoas que contribuíram com a História da Igreja no Brasil. Para a nossa Igreja Particular, a Arquidiocese de Salvador, este trabalho acrescenta aos outros já produzidos durante o Centenário do nosso querido Cardeal Dom Avelar. Brevemente, anunciaremos a data de lançamento.

Sinopse: O presente livro relata a vida e a atuação de Dom Avelar Brandão Vilela no Nordeste. Nesta obra, podemos conhecer a sua personalidade forte e a sua sensibilidade para questões sociais e políticas, que o tornou um líder importante da Igreja Católica no Brasil e uma referência significativa na América Latina.


Perscrutando Sinais

Alguns meses após o anúncio do Papa João XXIII, o Cardeal da Silva, Dom Eugênio Sales e Dom Avelar, entre outros, receberam uma carta do Cardeal Domenico Tardini solicitando assuntos que pudessem ser discutidos no Concílio. “Peço, portanto, vivamente, a Vossa Excelência que queira fazer chegar a esta Comissão Pontifícia (…) pareceres, conselhos e vota, que a solicitude pastoral e o zelo das almas, possam sugerir à Vossa Excelência em ordem às matérias e aos temas que poderão ser discutidos no próximo Concílio”, requisitou a carta.

O Papa João XXIII criou uma Comissão Antepreparatória, capitaneada pelo Secretário de Estado Tardini, para que fossem levantados os assuntos que deveriam compor a pauta conciliar. Dos 167 bispos brasileiros consultados, 132 enviaram resposta. Estes pareceres foram apresentados individualmente ou como voto de toda província eclesiástica, alguns elaborados, inclusive, com a assessoria de teólogos e canonistas. Muitos bispos aproveitaram a oportunidade para manifestar insatisfações da prática pastoral, mostrando o quanto o prescrito, do ponto de vista canônico, distanciava-se da vida dos fiéis.

No que diz respeito aos bispos do Nordeste, as indicações para o Concílio envolviam a responsabilidade eclesial na promoção dos povos subdesenvolvidos, questões doutrinais e o diálogo ecumênico e inter-religioso.  Dentre as sugestões, Dom Avelar, de quem celebramos o centenário, evidenciou o problema da evangelização em confronto com as religiões não-cristãs e com os cristãos não-católicos. Único do Nordeste a aproximar-se desta questão, o, então, arcebispo de Teresina não o fez em defesa da fé católica como os outros cinco brasileiros que tocaram no tema, mas de forma dialogal. Observe-se que, o prisma desta consideração de Dom Avelar será refratado na aproximação respeitosa que revelou a declaração Nostra Aetate e o decreto Unitatis Redintegratio, futuros documentos conciliares.

A Fase Antepreparatória legou, às etapas posteriores, 8.972 proposições que deveriam ser sintetizadas em tempo breve. É inegável que o material levantado constitui um verdadeiro retrato das inquietações da Igreja presente no mundo às vésperas do Concílio. Revisitar estas consultas, à luz dos temas que questionam atualmente a nossa inteligência e criatividade, pode nos apresentar caminhos que ainda não puderam ser percorridos pastoralmente.

 Série 50 anos do Concílio Vaticano II. Texto publicado no Jornal São Salvador: Junho de 2012.

 

 

Entre Perplexidades e Incertezas

Basílica de São Pedro

“Venerados irmãos e filhos amados! Pronuncio perante vós, decerto tremendo um pouco de comoção, mas, com humilde resolução de propósito, o nome e a proposta de uma dupla celebração: um Sínodo diocesano para Roma e um concílio ecumênico para a Igreja universal”. Com estas palavras, o Papa João XXIII anunciou o Concílio Vaticano II, no dia 25 de janeiro de 1959, aos cardeais residentes em Roma, que estavam reunidos num mosteiro beneditino, nas proximidades da basílica de São Paulo Além dos Muros. 

A notícia que surpreendeu o mundo cristão foi apresentada, na emissora de Rádio Vaticano, antes do papa comunica-la aos cardeais, em virtude de um imprevisto no tempo da missa, acontecida mais cedo na basílica de São Paulo. Tenha-se em conta que, o anúncio conciliar e o Sínodo para a diocese de Roma foram, ainda, seguidos de uma terceira proposta: a atualização do Código de Direito Canônico de 1917. Segundo o Papa João XXIII, na mesma alocução, foram estes “os pontos luminosos de atividade apostólica que esses três meses de presença e contato com o ambiente de Roma sugeriram”.

De modo geral, a Igreja e a opinião pública mundial foram tomadas, como algo que é dado a um só golpe e de uma vez por todas, de perplexidade e incerteza quanto ao que havia sido divulgado. Dois anos adiante, o Papa João XXIII recordou que os dezessete cardeais presentes na ocasião reagiram “com impressionante e devoto silêncio”. O restante do colégio cardinalício foi contatado pelo Secretário de Estado, o Cardeal Domenico Tardini. Destes, menos de um terço dos cardeais emitiram resposta sobre a novidade do concílio. Os que apresentaram retorno à carta ofereceram as suas orações e manifestaram os seus préstimos diante do anúncio conciliar. Da Igreja do Brasil, foi encontrada, apenas, entre os documentos pontifícios, a resposta do Cardeal Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro, para o qual esta notícia “abriu um raio de esperança em dias melhores para a cristandade”.

Em suma, a notícia de um concílio ecumênico, ainda sem o nome, foi recebida com certa hesitação pela imprensa e pelos diversos setores eclesiais. Na história da Igreja, estava anunciado aquele que se tornou uma dos maiores episódios eclesiais já acontecidos, pela confluência espiritual e numérica dos seus participantes.

Série 50 anos do Concílio Vaticano II. Texto publicado no Jornal São Salvador: Maio de 2012.

 

Trecho do livro “Pouso dos Cristãos”

A criação da freguesia de São Sebastião dá-se numa específica conjuntura eclesial: a este tempo, a Igreja do Brasil encontrava-se submetida aos Direitos de Padroado, regime durante o qual esteve oficializada a união da Igreja com a Coroa de Portugal. E damos, aqui, relevo a esse acordo, posto ser imprescindível à compreensão da história precedente à criação da freguesia e às relações que a Igreja continuará constituindo com o Estado da criação da paróquia em diante, por mais dois séculos, quase.

O termo padroado tem a sua gênese na palavra latina patronus (FERREIRA, 2000, p.353) e pode ser traduzido por advogado, defensor ou protetor. As traduções que recebem o termo patronus iluminam a compreensão das concessões administrativas feitas pelo Papa ao Rei de Portugal, de certo grau de controle sobre uma Igreja local. No contexto em que se insere, esse termo evoca a idéia de “padroeiros terrestres” [1], inspirando e servindo de modelo a este direito.

Tendo isso em conta, e admitindo atrás de si uma história que envolve relações com as Ordens Religiosas Militares[2], no ano de 1551, foi instituído o regime que conferiu somente aos reis de Portugal, a partir dessa data, unirem às prerrogativas dos direitos políticos que possuíam, as funções do grão-mestrado das ordens religiosas militares. De modo que, o Direito de Padroado concedido pelo papa Júlio III estendeu aos monarcas portugueses o exercício, além do governo civil, da administração religiosa nas colônias sob sua jurisdição. A partir disso, constituiu uma obrigação do rei de Portugal a responsabilidade de instalar a Igreja e propagar a mensagem cristã nos domínios ultramarinos.

Nestas condições de “Governador e Perpétuo administrador”, se encontrava “El – rey”, D. João V (1707 – 1750), do “Mestrado e da Cavallaria e Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo”, quando ordenou que  “Das Freguesias de N. Sra. do Monte [do Recôncavo], e de N. Sra. da Encarnação de Passe Cabeceiras, da de N. Sra. do Socorro se desmembre e se crie outra Freguesia”. Essa paróquia, que recebeu o nome de São Sebastião das Cabeceiras do Passé, foi confirmada no governo pastoral de D. Sebastião Monteiro da Vide, na sua competência. E teve o seu espaço eclesiástico concebido a partir dos territórios atuais de Encarnação de Passé, que constituiu a sua maior parte, do Monte e de Mataripe, ambos distritos de São Francisco do Conde.

(…) 

O panorama mais antigo da Freguesia de São Sebastião, à época aproximada de sua criação, seguramente encontrado pelo Pe. Gaspar de Souza, nos é mostrado por uma situação de desagrado, quando “os habitantes de Nossa Senhora do Passé queixaram-se ao perder um distrito contendo cinco engenhos e 2500 almas devido à criação da nova paróquia de São Sebastião [das Cabeceiras] do Passé, em1729”(SCHWARTZ, 1995, p.81). Não se passarão trinta anos deste informe, quando o Vigário colado Felipe Barbosa da Cunha, em 1757, enviou à Coroa de Portugal a notícia de que possuía a freguesia 410 fogos e 2640 almas (ACCIOLI; AMARAL, 1937, p. 404). Entenda-se a palavra “fogos” à semelhança de fogão, indicador, portanto, das unidades familiares, as casas.

Em 1759, um novo censo nos aparece. Este, feito por José Antônio Caldas, nos dá a notícia de 2500 habitantes (CALDAS, 1951, p.66-67), “na qual não entram os menores de sete anos, nem os pagãos” (idem, p. 70), distribuídos à beira dos caminhos mais antigos, nos oito engenhos e sessenta e dois sítios que faziam parte da freguesia de São Sebastião, registrados pelo Vigário Felipe Barbosa, dois anos antes. Prestemos, aqui, atenção a um detalhe curioso: é sabido que não são um e mesmo os olhares do Vigário Felipe Barbosa e do engenheiro militar Antônio Caldas. O Vigário Felipe Barbosa considera como almas tanto os não batizados quanto as crianças que ainda não atingiram a idade da razão, sete anos, enquanto o Cap. Antônio Caldas contemplou apenas a população economicamente ativa e disponível militarmente, em seu censo feito dois anos depois. Disso depreende-se que a freguesia, em meados do Dezoito, contava com 140 crianças e não batizados.

Às portas do Oitocentos, a paróquia São Sebastião sofre a primeira transformação em sua geografia eclesiástica e o número dos cristãos reunidos diminui consideravelmente.  No ano de 1799, durante a transição de pastoreio do Pe. Manoel José Ribeiro para o do Pe. José Joaquim da Rocha, contávamos com a quantidade de 240 fogos e o diminuído número de 1956 almas, registra Vilhena (1969), (Livro de Batismo, 1785-1815, pp.60-195). Uma redução ainda mais acentuada no número de moradores devido ao desmembramento sofrido com a criação da freguesia de Sant’Anna do Catu, em 1787.

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Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial

Depois de três anos de pesquisa, virá ao público um trabalho sobre o processo de formação das freguesias na Bahia colonial. O livro apresenta o caso de uma das vinte freguesias criadas, em tempo único, por D. Sebastião Monteiro da Vide, no ano de 1718.  Por intermédio de processos de inquirição, obituários, cartas geográficas, livros de engenhos, rituais litúrgicos, testamentos e documentos régios, aproximamos do leitor o passado colonial de São Sebastião. O resultado apresenta o cotidiano de uma freguesia, no Dezoito, perscruta a sociedade sebastianense colonial, refazendo a fisionomia da gente fiel e dos seus decisivos momentos.

 A obra, de minha autoria, levará o nome de Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial será lançada no segundo semestre de 2011.

Dia 12 de junho, apresentaremos a capa do Pouso dos Cristãos e a data do lançamento do livro.

Danilo Pinto, Pe.

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