Arquivo

Archive for the ‘Gestão Eclesial’ Category

Diagnósticos e Definições Estratégicas na Gestão Eclesial

Ano 8, n. 46 / Jan e Fev 2014

Ano 8, n. 46 / Jan e Fev 2014

A instituição paróquia, cenário privilegiado do cotidiano das Igrejas Particulares, assumiu uma complexidade que não possuía outrora. Em muitas paróquias do Brasil, os ambientes da secretaria paroquial foram ampliados em centros pastorais e de ação social; funcionários tiveram os seus direitos e deveres reconhecidos, ante a legislação trabalhista; sistemas integrados de gestão passaram a fazer parte do cotidiano; o patrimônio antigo passou a ter um acompanhamento mais técnico, tudo isto, em vista da pastoral e da missão. Esta série de pontos e vírgulas, no texto e na história da paróquia, faz-nos observar que, enquanto a maioria das grandes organizações dividiram as atribuições dos seus funcionários (em cargos operacionais, táticos e estratégicos), esta instituição do terceiro setor permaneceu com as figuras do pároco e da antiga secretária paroquial, como os principais colaboradores. A organização administrativa da paróquia, infelizmente, não acompanhou o seu evolutivo grau de complexidade.

Se as paróquias nasceram de uma preocupação pastoral e missionária (Doc. 104 CNBB, p. 34), as mudanças na sua administração devem acontecer por preocupação semelhante. Já sabemos: toda estrutura administrativa da Igreja existe em função da pastoral, da missão e da comunhão eclesial. “Conhecer a realidade das comunidades paroquiais é determinante para identificar caminhos possíveis para a renovação paroquial e a consequente revitalização das comunidades cristãs” (Doc 104 CNBB, p. 50). Diante da nova complexidade organizacional da paróquia, é preciso adotar uma nova dinâmica institucional.

UM DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO

Toda paróquia existe dentro de um ambiente. O primeiro passo para nova dinâmica institucional é realizar uma análise do ambiente paroquial. O ambiente paroquial deve, aqui, ser entendido como o conjunto de fatores que influenciam e interferem na vida da paróquia, do ponto de vista interno e externo. O próprio documento de estudos da CNBB (104), Comunidades de Comunidades: Uma Nova Paróquia, nos alerta, “em si, a paróquia não é um todo, pois está unida a outras paróquias formando a Igreja Particular, ou a Diocese. Igualmente, a paróquia está inserida na sociedade, recebe e oferece influências” (p. 51). Para obtermos um diagnóstico estratégico é importante distinguir o ambiente paroquial, em macro e microambiente.

O macroambiente paroquial é constituído dos fatores externos à instituição, sobre os quais ela não possui controle. Compõem o ambiente geral os fatores naturais, demográficos, econômicos, culturais, políticos e tecnológicos. Ainda, dentro do ambiente externo, existe um ambiente operacional, sobre os quais a paróquia também não possui domínio: fiéis, voluntários, fornecedores, movimentos, paróquias vizinhas e outras denominações religiosas cristãs e não cristãs. É no macroambiente que estarão concentradas as oportunidades de crescimento e possíveis riscos à vida da paróquia.

O microambiente paroquial, por sua vez, é definido pelos pontos fortes e fracos, sobre os quais a instituição possui certo grau de controle. Compõe o microambiente o relacionamento da paróquia com os fiéis, a transparência na prestação de contas, a comunicação pastoral, a qualificação dos funcionários, os grupos e pastorais, os ministros extraordinários, a resposta às demandas dos paroquianos, a imagem da paróquia na sociedade e os recursos (instalações, equipamentos, marcas e projetos). Nestes aspectos, estão concentradas as principais forças e necessidades de melhoria da instituição. Estes pontos precisam ser trabalhados, a fim de que a paróquia melhore o seu desempenho administrativo-pastoral, e conquiste os resultados almejados.

A ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA PAROQUIAL

A administração paroquial compreende o planejamento da instituição e a coordenação dos fiéis, em vista da pastoral. Ela existe em função da pastoral, e, é influenciada pelo macro e microambiente da instituição. É preciso, contudo, administrar esta complexidade, estabelecendo uma eficaz adequação entre a paróquia, o ambiente paroquial, os seus recursos e os fiéis, em vista do seu plano pastoral e administrativo. Encontrar este ajuste garantirá a assistência dos fiéis, a eficácia e o crescimento pastoral, a saúde financeira da paróquia e o cuidado com o patrimônio.   Algumas perguntas podem ajudar a desenvolver a sua estratégia:

1ª. como o macroambiente afeta a paróquia?

2ª. A paróquia consegue influenciar algum dos fatores macroambientais?

3ª. De que recursos a paróquia precisa dispor para responder à realidade circundante?

Ouvimos falar, nos últimos documentos da Igreja no Brasil e da América Latina, acerca de dois sistemas pastorais: a pastoral sacramental e a pastoral orgânica. E, que, é preciso deixar um para adotar o outro. Tenhamos em conta que, cada modelo pastoral pressupõe uma estrutura administrativa.

Na pastoral sacramental, a vida da paróquia marca os principais momentos da vida do indivíduo conduzindo-o de não-cristão à batizado, de solteiro à casado e de vivo à morto. A vida pastoral é setorizada, segundo os sacramentos e ciclos pré-estabelecidos, catequese para a iniciação cristã, festa de padroeiro, atendimento do padre na secretaria, visita aos enfermos, etc. As metas pastorais dos fiéis e grupos são pré-definidas pelo pároco. Pelo fato de existirem poucas mudanças no ambiente externo e o cenário ser previsível, as atividades podem ser planejadas com bastante antecedência.  Para a pastoral sacramental, uma secretaria paroquial com, apenas, um auxiliar administrativo para informações gerais, organizar a agenda do padre, e receber o dízimo é suficiente. O modelo pastoral sacramental exige uma estrutura administrativa simples e operacional

DEFINIÇÕES ESTRATÉGICAS

Caso a paróquia esteja em um ambiente em transformações ou turbulento, é necessário que seja colocada em prática uma pastoral orgânica. Neste modelo, os fiéis e os grupos trabalham em conjunto, são proativos e dependem menos de cobranças do pároco para funcionar. Na proposta orgânica, as tarefas pastorais têm de ser redefinas constantemente para estar de acordo às necessidades do mutante macroambiente paroquial. Os problemas precisam ser abordados por diferentes frentes pastorais, respondidos de forma integral e criativa. Os fiéis devem cultivar o empreendedorismo pastoral, estar em constante processo de comunicação, favorecendo a unidade (não uniformidade) paroquial e a comunhão eclesial.

As necessidades da pastoral orgânica é que determinarão a estrutura, as ações e as estratégias administrativas de uma paróquia. É óbvio que a proposta de uma pastoral orgânica pede uma estrutura que complemente o tradicional formato de secretaria paroquial ou até mesmo que o ultrapasse. Os atendimentos podem ser divididos em pastoral, administrativo e social, com atribuições bem definidas. Pode haver a necessidade de, dentro do atendimento pastoral, se criar um atendimento exclusivo para o dízimo, em virtude da quantidade de dizimistas ou haver a necessidade de criar um atendimento para outra pastoral ou serviço que seja o carro-chefe da paróquia.

Esta modalidade de pastoral orgânica pode vir a suscitar estruturas ainda mais inovadoras, como a que propomos na edição 43, desta revista, julho-agosto 2013. Nesta edição, propomos que a paróquia fosse entendida, a partir de novas centralidades, chamadas de Centralidades de Irradiação Pastoral. Nestas centralidades podem existir secretarias paroquiais com autonomia pastoral limitada, podendo oferecer alguns serviços. Observe-se que já o documento de estudo da CNBB (n. 104 p. 75), nos recomenda que “é possível descentralizar o atendimento pastoral, mesmo que não seja fácil ‘passar de uma estrutura centralizada num único prédio, onde acontecem todas as atividades, a uma paróquia comunidade de comunidades” (…).

Em suma, a eficácia da estrutura administrativa paroquial depende do correto “ajustamento” entre a paróquia, o ambiente paroquial, os seus recursos e os fiéis. Não existe, portanto, uma fórmula ou modelo predefinido de organização administrativa, mas um ambiente e complexidade paroquial que precisam ser compreendidos e, para os quais, precisam ser oferecidas respostas.    

Pe. Danilo Pinto cursa MBA Internacional em Gestão Empresarial (Ruy Barbosa – DeVry Brasil), coordena a Pastoral Universitária, e atua como administrador da Paróquia Sagrada Família (Arquidiocese de São Salvador da Bahia).Leciona e coordena o Núcleo de Pastoral da Universidade Católica do Salvador. Pesquisa História da Igreja no Brasil, e é autor dos livros “Dom Avelar: Um Bispo do Brasil Nordeste” (Edições CNBB) e “Pouso dos Cristãos: Uma Freguesia na Bahia Colonial” (Editora Vento Leste).

Blog: www.danilopinto.wordpress.com

Contato: pedanilopinto@yahoo.com.br

Gestão Eclesial – Entenda como é a gestão de processos em sua instituição

Edição 41 – Março | Abril 2013

Edição 41 – Março | Abril 2013

Toda gestão implica em coordenar processos. Mas, processos, que processos?  Todo processo é um conjunto de ações que possibilita o alcance de um resultado. Por sua vez, a gestão de processos é a coordenação dos procedimentos que encaminham as ações para determinado fim. Contudo, é preciso chamar atenção para um aspecto, e, é preciso dizê-lo, imediatamente: o fato de existirem procedimentos para a realização de um projeto, não quer dizer que eles sejam coordenados para uma finalidade.

Constantemente, gestores dos mais diversos empreendimentos pastorais se deparam com a baixa produtividade e a pouca eficácia dos seus colaboradores, com o não cumprimento das metas estabelecidas, o prevalecimento de interesses pessoais em detrimento da missão da organização religiosa, a falta de flexibilidade para as mudanças que as necessidades exigem, as tomadas de decisão distanciadas dos valores da instituição e a falta de sustentabilidade dos projetos. Aceite-se ou não, todos esses aspectos são sinais da ausência de gestão de processos. Entretanto, quais as vantagens em adotar esse modelo de gestão para as organizações religiosas? E, tomando esta decisão, como mobilizar pessoas dentro deste estilo de governança?

Montando Estratégias

Para desenvolver a habilidade de coordenar procedimentos é preciso, antes e primeiramente, ter diante de si a missão e a visão da instituição, uma vez que essas dimensões irão orientar os processos organizacionais. São a missão e a visão da instituição que oferecerão a metodologia e a perspectiva das estratégias necessárias para alcançar com mais facilidade os resultados esperados. Sendo assim, é preciso identificar e analisar os procedimentos montados para cumprir o planejado, desenhando uma espécie de mapa de trabalho.

Sintetizado o processo, é preciso elaborar mecanismos de feedback, a fim de que sejam detectados os desvios inesperados, faça-se a correção de rumo, e, caso necessário, mude-se o processo para obter o resultado almejado. Postura que torna o trabalho constantemente adaptativo. Ainda assim, é indispensável que existam formas de medir o desempenho dos colaboradores do projeto e avaliá-lo, sempre.

Ferramenta importante é a utilização de tecnologias para o acompanhamento dos procedimentos.  Um administrador paroquial que possui muitas atribuições, por exemplo, pode acompanhar o andamento dos trabalhos, na secretaria paroquial, por meio dos atuais sistemas de computação de nuvem (Dropbox, Google Drive e ICloud), que lhe permitem acessar as informações de casa, outra estação de trabalho ou ocasiões de viagens. Os sistemas de computação de nuvem, além de permitir acompanhar a modificação dos processos em tempo real e de diferentes lugares, possibilitam uma verdadeira convergência da inteligência, a partir dos quais um documento pode ser trabalhado simultaneamente pelo administrador, seu secretário paroquial e outros colaboradores.

Pessoas Mobilizadas

Gestão de procedimentos adotada, é preciso mobilizar as pessoas dentro de outra lógica de trabalho. Para tanto, faz-se necessário criar uma atmosfera que difunda a cultura ou o carisma da instituição. De modo que, o ambiente deve ser formado de posturas, orientações práticas, organização do espaço físico e formativo da instituição, como por exemplo, a elaboração de um Guia Pedagógico para as Casas Religiosas de Formação ou Instituições de Ensino. Note-se que tal contexto irá favorecer o alcance de resultados, na perspectiva da missão e dos valores da instituição.

O gestor de processos deve ter um olhar atencioso e pedagógico a respeito das pessoas com quem se trabalha. Falo isso, porque toda pessoa é resultado de uma soma histórica de experiências de vida e de trabalho que podem contribuir ou não no desempenho da sua função.  Um olhar pedagógico permitirá identificar pontos fortes dos colaboradores e ativá-los em vista da razão de ser (missão) da instituição religiosa.

É imprescindível incluir os envolvidos em todas ou alguma etapa de planejamento e socializar as informações do projeto. Envolver os colaboradores na construção da proposta torna-os co-responsáveis pelo trabalho e processo de execução. Além de compartilhar a responsabilidade, essa atitude favorecerá um aumento da estima e da produtividade da equipe de trabalho. Fosse pouco, será possível perceber, em longo prazo, um compromisso com o destino da instituição religiosa.

A Bússola do Gestor

É do gestor eclesial o papel de governança da organização religiosa, e deve, ele, orquestrar a coordenação dos processos. Mas, não devemos esquecer que a coordenação dos processos e a liderança de pessoas, dentro dos valores do Reino, por sua vez, é o que constitui a natureza de toda e qualquer gestão eclesial. Subtrair-se destes princípios é negar a natureza eclesial da instituição.

Pois bem, este trabalho pede do gestor um conhecimento abrangente de todas as etapas do processo, bem como uma atenção aos efeitos do cenário sobre os projetos da instituição. O gestor religioso, ou a quem ele atribui essa responsabilidade, é o responsável principal pela definição dos papéis e das responsabilidades envolvidas, escolhendo ferramentas, adotando métodos e elaborando estratégias que possam desenovelar e integrar os processos. Ter diante de si a razão de ser e o que é esperado da instituição religiosa no futuro é ter o norte de uma bússola, na gestão de processos.

Em suma, gerir procedimentos não significa, apenas, identificá-los, mas planejar com as pessoas, direcioná-las e acompanhá-las na execução, de forma permanente, em busca de um objetivo. Modalidade de trabalho que lhe possibilitará, caro gestor, corrigir a direção antes de apresentarem-se os resultados. Se bem conduzidos, os processos conseguirão agregar valor à imagem da instituição, bem como, garantir a sua manutenção e o cumprimento da sua proposta ao longo dos anos.

Danilo Pinto, Pe.

Texto publicado na Revista Paróquias e Casas Religiosas, ed. 41, março / abril 2013